Tuesday, February 01, 2005

Negra

Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos
quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias...
Teus encantos profundos de África.


Mas não puderam.
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade,
quedas-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.
E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual,
jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atracção, crueldade,
animalidade, magia...
e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.


Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra...
menos tu.


E ainda bem.
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE

(Noémia de Sousa)

2 comments:

Márcia Maia said...

Belo demais este poema. Puro sentimento. Beijo por ele, Peter.

Peter said...

Márcia:
Carolina Noémia Abranches de Sousa nasceu a 20 de Setembro de 1926 na Catembe, Moçambique e destacou-se nas actividades jornalística e poética. Foi jornalista das agências noticiosas ANI, ANOP e Lusa. O mundo cultural moçambicano ficou mais pobre com o desaparecimento físico de uma sua referência. Noémia de Sousa, 76 anos, morreu a 4-12-2002 em Cascais, vítima de doença prolongada.