Monday, May 09, 2005

Soneto Científico a Fingir

Cícero Dias©
Image Hosted by ImageShack.us



Dar o mote ao amor. Glosar o tema
tantas vezes que assuste o pensamento.
Se for antigo, seja. Mas é belo
e como a arte: nem útil nem moral.

Que me interessa que seja por soneto
em vez de verso ou linha desvastada?
O soneto é antigo? Pois que seja:
também o mundo é e ainda existe.

Só não vejo vantagens pela rima.
Dir-me-ão que é limite: deixa ser.
Se me dobro demais por ser mulher
[esta rimou, mas foi só por acaso]

Se me dobro demais, dizia eu,
não consigo falar-me como devo,
ou seja, na mentira que é o verso,
ou seja, na mentira do que mostro.

E se é soneto coxo, não faz mal.
E se não tem tercetos, paciência:
dar o mote ao amor, glosar o tema,
e depois desviar. Isso é ciência!


Ana Luísa Amaral

2 comments:

Márcia Maia said...

Bom dia, Peter!
Desta vez sei que entrei na sua seara: a poesia portuguesa. Mas é que amo tanto este poema, amo tanto a poesia de Ana Luísa, que tendo amanhecido com ele na cabeça, não resisti.
Espero que você não se importe. ;)
Um beijo daqui.

Anonymous said...

Foi uma boa escolha, Márcia. Um soneto com um certo humor. Não conhecia esta poetisa. Grata pela partilha Bjo. Amita//brancoepreto