Monday, March 05, 2007

Spleen

Hoje estou com o "spleen". Alíás há dois dias que ando com ele. Perguntaram-me há pouco o que era o "spleen". Aí está Charles Baudelaire, "o poeta maldito" a falar-nos dele:
"o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra"
Paris dos anos 20 do século passado, estrangeiros, sobretudo americanos, pintores, poetas, escritores e jornalistas como Hemingway, encharcando-se em absinto, circulando por St Germain des Près, frequentando "Les deux magots" e "La coupole" e, muitos deles acabando por irem integrar as "Brigadas Internacionais" na Guerra Civil De Espanha.

"Devemos andar sempre bêbados. Tudo se resume nisto: é a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar. Mas com quê? Com vinho, com poesia ou com virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te. E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são:
«São horas de te embriagares! Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com virtude, a teu gosto.»

( Charles Baudelaire, "O Spleen de Paris" )

Embriaguemo-nos então com a poesia de Baudelaire, neste pequeno poema em prosa, que é o meu preferido. Desculpem ir em francês, mas se a tradução não é boa, os poemas perdem qualidade:

L’étranger

“Qui aimes-tu le mieux, homme énigmatique, dis? Ton père, ta mère, ta soeur ou ton frère ?
- Je n’ai ni père, ni mère, ni soeur, ni frère.
- Tes amis ?
- Vous vous servez là d’une parole dont le sens m’est resté jusqu’à ce jour inconnu.
- Ta patrie ?
- J’ignore sous quelle latitude elle est située.
- La beauté ?
- Je l’aimerais volontiers, déesse et immortelle.
- L’or ?
- Je le hais come vous haïssez Dieu.
- Eh ! qu’aimes-tu donc, extraordinaire étranger ?
- J’aime les nuages ... les nuages qui passent ... là-bas ... là-bas ... les merveilleux nuages ! »

(Charles Baudelaire, « Le spleen de Paris – petits poèmes en prose »

Baudelaire, o "poeta maldito". Oh! Como nestes dias me alivia embriagar-me nos seus versos.

6 comments:

Uma vida... said...
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Dara Martins said...

Gostei...

Beijinho,
DARA MARTINS

Uma vida... said...
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Klatuu o embuçado said...

Ainda dás em gótico! ;)

Papoila said...

Baudelaire e as nuvens aquelas que correm ali em baixo.
Beijinho

Kalinka said...

PETER
sinto-me tão bem, embriagada pela tua poesia...

Apetece-me sentar-me no parapeito da janela e olhar o céu em silêncio, contemplar as estrelas, sentir-me envolvida pela luz da lua.
Apetece-me embrulhar-me num cobertor e chorar até que as forças me faltem, deitar toda a dor, mágoa, tristeza, desilusão, arrependimento, amargura, medo, tristeza…

Beijokas.
Bom fim de semana.