Friday, June 01, 2007

Nos nossos olhos há uma ingenuidade imediata


“Nos nossos olhos há uma ingenuidade imediata
que é mais do que uma ponte para o dia
porque é o dia mesmo no seu espaço de luz,
na sua lenta fatalidade, na sua urgência solar.
Escrevo talvez para sorver uma laranja de sombra
que é uma encantação do tempo no espaço liso da casa.
Estou atento ao menor frémito do silêncio
que talha na palavra as pálpebras do sossego.
Talvez eu escreva um verso como um talismã
ou pouse a minha palma sobre um ombro
de uma figura de água delicada,
vazia de sentido mas como uma estrela branca
ou uma harpa azul com seus flancos de ouro.
Se no silêncio a que o poema conduz
eu desenhasse o ouvido vegetal
da tranquila cobra de veludo e pólen
que dorme à beira de um regato verde
talvez pudesse atravessar o dia
com a lentidão fresca de um barco deslumbrado
abrindo o caminho na árvore azul do mar.”

(António Ramos Rosa, “Os volúveis diademas”, Poema 14)

No Prefácio de “Os volúveis diademas”, escreve Paula Cristina Costa:

“ .. toda esta poesia é animada pelo frémito do desejo, por um erotismo imanente e iminente que incendeia toda a arte poética ramos-rosiana. (...) Por isso, o amor nesta poesia revela-se indistintamente no corpo da mulher, no corpo da terra e no corpo da palavra poética. Deste modo, todo o erotismo que incendeia a imagem da mulher se transforma no erotismo do próprio funcionamento da linguagem poética. Ao longo destes vinte e seis poemas, esta distinção entre corpo da mulher/corpo do poema revisita várias vezes esta escrita:

“Vi-lhe os flancos delicados
como se tocasse o nome
de um navio.
Eram sílabas talvez de um verso puro
ou a dócil matéria
firme
de uma ilha adolescente. (...)”

(in poema 11)

9 comments:

Nilson Barcelli said...

É um grande escritor.
Também gostei do excerto do prefácio.
Bom fim-de-semana.
Abraço.

Carreira said...

A poesia dá outro valor à nossa vidinha. Bom fim-de-semana!

belakbrilha said...

Adoro António Ramos Rosa

Escreve muito bem!

bom fim de semana

Paula Raposo said...

A ingenuidade que nos permite acreditar, ainda, num futuro...mesmo ao som do Fur Elise...

Kalinka said...

A nova aldeia da Luz,
tem casas modernas
que imitam a tradicional
linha arquitectónica alentejana.
A planta da vila
é muito ordenada,
estilo ortogonal (com ruas e avenidas perpendiculares)
e é fácil perceber que foram feitas de encomenda.
Numas ruas encontramos casas brancas com faixas azuis,
noutras com faixas amarelas
e até há casas com faixas castanhas.
Muitos dos nomes das novas ruas
são letras do alfabeto,
p.ex. Rua G - Rua M.

Assim nasceu uma nova aldeia, neste belo País à beira-mar plantado.

PETER:
Uma dúvida me atormenta: será que os habitantes desta nova aldeia são felizes, na sua vida diária, com uma mudança tão radical nas suas vidas próprias?
Que achas? dá o teu parecer.

Boa semana.
Beijitos.

Ana Luar said...

Parafraseando Almada Negreiros, os ingénuos ignoram a força criadora da ingenuidade, e na ânsia de crescer compram vantagens imediatas ao preço da sua própria ingenuidade.

Adorei a escolha de António Ramos Rosa um escritor a ler e reler...

Papoila said...

Peter:
António Ramos Rosa é maravilhoso e esta ingenuidade imediata do espaço de luz é de uma beleza suprema.
Beijos

Nilson Barcelli said...

Interregno...?
Abraço, bom Domingo.

Menina_marota said...

António Ramos Rosa é um Poeta que para se conhecer, tem que se ler, e ler e tornar a ler...
Ele é um mundo de Poesia...

Boa escolha.

Um abraço e grata pela partilha.