Sunday, November 21, 2004

Aquela madrugada fria ...

(...)

O GC (Grupo de Combate) saíra cedo, aí pelas 5h da manhã. Preocupados, como era natural Só os inconscientes aceitam de ânimo leve as missões difíceis. Mais uma coluna de reabastecimento para a Companhia de Miteda. Mais uma operação de "picagem" em que o engenho do homem vai procurar substituir os avanços da técnica.
A longa fila forma-se e avança. Um a um, os homens saem o arame farpado. Há uns acenos de despedida. Votos de boa sorte, a que os que ficam respondem com o esgar de um sorriso.
O ar está carregado, ameaça tempestade, e as nuvens, escuras e disformes acastelam-se no céu numa cavalgada dantesca.
A picada, simples rodado no meio do mato cerrado, serpenteia tal como uma perigosa cobra, acachapada no meio do capim que a abafa. Começa o trabalho das "picas" e dos "ancinhos". Lentamente, metro a metro, os homens avançam. Nada detectam. O ambiente de espectativa, a tensão, a morosidade do trabalho, começam a sua obra de desgaste psíquico. A pouco e pouco, os músculos relaxam-se e os homens seguem como autómatos, o ouvido desperto ao mínimo ruído, os sentidos apurados até ao limite máximo, sente-se, quase se adivinha, a menor resistência encontrada pelas "picas". Devoram-se maços de cigarros. Outros iniciam o seu trabalho devastador sobre as rações de combate. Quase não param de comer. Estranha é a natureza humana, reagindo de modos tão díspares.
Começa a chover. Chuva torrencial e impiedosa. Não vai parar. Vão ser cerca de 12 horas de chuva intensa e contínua. A picada torna-se um verdadeiro inferno. Charcos, autênticos lagos, buracos causados por minas em jornadas anteriores, atascam os homens que continuam a avançar. Por vezes, mergulham até à cintura. É preciso arriscar. A coluna já há muito se encostou à traseira do GC e tem de avançar. Os mantimentos têm de chegar ao seu destino. Nao vão chegar, pelo menos desta vez. É detectada uma mina A/C (anti-carro), como é inevitável com a sua corte de minas A/P (anti-pessoal) rodeando-a, quase a acariciando, num afago de morte e destruição.
Os homens recuam. Antes já tinham parado. Vai proceder-se à sua destruição. E continuam a surgir. Uma, depois outra, ,mais outra ainda. (...) O tempo arrasta-se, mole e viscoso, diluido na chuva que cai em catadupas. Dez horas se passaram desde a saída do aquartelamento. Dez horas, para cerca de 8 kms percorridos. A ligação rádio com a base há muito se perdeu. Uma estúpida avaria cortara cerce aquele elo de ligação. (...) É então que surge o desastre, agarrando e fustigando os homens com as suas garras aduncas, despertando-os do seu quase torpor, dilacerando a carne dos atingidos. Uma mina A/P, provavelmente reforçada, atingiu um homem gravemente e feriu mais dois. O maqueiro acorre lesto, indiferente ao perigo, ignorando a existência de outras minas. Ajoelha e, tal como um sacerdote, num estranho ritual de carne e sangue, ministra os primeiros socorros aos feridos. O Alferes encontra-se junto dele. Cabe-lhe tomar uma decisão: encontra-se a mais de meio caminho do seu ponto de destino, a noite aproxima-se rapidamente, tem três homens feridos e não tem possibilidades de pedir socorros via rádio. Toma rapidamente a sua decisão. (...) A coluna regressa a Nangololo. (...)

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De madrugada, ao romper do dia, como um anjo benfazejo, o Helio (helicóptero) tomou nos seus braços os corpos despedaçados.

8 comments:

blimunda said...

"metralhadoras cantam a canção da guerra... eu não quero morrer... " conheces este poema, peter? do manuel alegre ? o meu coração encolhe-se ao ler o teu relato... não tenho sequer palavras, muito provavelmente porque o meu sangue está impregnado dessas imagens. nasci na guerra...

LetrasAoAcaso said...

Parece-me bem meu amigo que temos todos nós as mãos manchadas de sangue, ainda que a maior parte de nós, por omissão.
Um abraço

amita said...

Muito real o teu texto Peter. Cenas da guerra no Ultramar que pouca gente, nos dias de hoje, conhece. Bjos amigo

Anonymous said...

Peter.. estou impressionada
com o que estou lendo..
Só quem vive uma guerra poderá carregar tantos
lembranças de dor e esperança..
A sua sensibilidade fica a flor da pele..
beijos amigo!!

Peter said...

"Blimunda", o Manuel Alegre pertence à classe dos privilegiados que possuiam meios e possiblidades de fugir à guerra. Muitos,não concordando com ela,tiveram mesmo que ir e por lá ficaram, ou voltaram afectados física ou psiquicamente.

Peter said...

"Letras", nem todos. Alguns redimiram-se, dando-te a liberdade de que gozas actualmente.

Peter said...

"Amita", real porque vivido.

Peter said...

"Lú", a primeira vez que fui a uma povoação, estava sentado numa esplanada e meti-me debaixo da mesa quando fecharam a porta do frigorífico: o ruido era igual ao disparo de um morteiro.