Friday, November 26, 2004

As flores do mal

pelas montanhas oblíquas
desenham as mulheres
o rosto com os dedos
rostos sempre tapados
para o terror dos vivos
não sei se elas se mostram
o que ao mundo querem dizer
freiras absurdas do vento e do medo
murmuram: "irmão, não deves rir"
não sei se elas se mostram
não sei se elas vão ser
não sei se elas não choram
se cantam um burburinho forte
ou se são fadas com gemidos
sempre sempre sempre a dormir

não sei se elas são estátuas
não sei se são de vidro
se podem cantando chorar
pelos filhos e pelos maridos

que grito hão-de dizer?
que grito hão-de soltar
se no exílio têm ficado
cansadas de morrer?

e o vento sopra
há poeira no deserto
sobre as montanhas oblíquas
afinal quem muito sofre
é quem nunca diz sofrer

de que serve tudo isto
com este véu sinistro?
quem foi que as viu nascer?

pássaros mortos
um dia apodrecem

e alá expõe a sua terrível máscara
repleta de sangue e horror

(Maria Azenha)

1 comment:

amita said...

Maravilhoso poema na sua recolta e dor. Bjinhos grandes minha Amiga. Bjos para ti, Peter, que tão bem sabes escolher.