Sunday, December 26, 2004

Caminhos do Espelho

I
E sobretudo olhar com inocência. Como se nada se passasse, o que é certo.

II
Mas a ti quero olhar-te até estares longe do meu medo, como um pássaro no limite afiado da noite.

III
Como uma menina de giz cor-de-rosa num muro muito velho subitamente esbatida pela chuva.

IV
Como quando se abre uma flor e revela o coração que não tem.

V
Todos os gestos do meu corpo e voz para fazer de mim a oferenda, o ramo que o vento abandona no umbral.

VI
Cobre a memória da tua cara com a máscara daquela que serás e afugenta a menina que foste.

VII
A nossa noite dispersou-se com a neblina. É a estação dos alimentos frios.

VIII
E a sede, a minha memória é da sede, eu em baixo, no fundo, no poço, bebia, recordo.

IX
Cair como um animal ferido no lugar de hipotéticas revelações.

X
Como quem não quer a coisa. Nenhuma coisa. Boca cosida. Pálpebras cosidas. Esqueci-me. Dentro o vento. Tudo fechado e o vento dentro.

XI
Sob o negro sol do silêncio douravam-se as palavras.

XII
Mas o silêncio é certo. Por isso escrevo. Estou só e escrevo. Não, não estou só. Há alguém aqui que treme.

XIII
Ainda que diga sol e lua e estrelas refiro-me a coisas que me acontecem.
E o que desejava eu?
Desejava um silêncio perfeito.
Por isso falo.

XIV
A noite parece um grito de lobo.

XV
Delícia de perder-se na imagem pressentida. Levantei-me do meu cadáver, fui à procura de quem sou. Peregrina, avancei em direcção àquela que dorme num país ao vento.

XVI
A minha queda sem fim na minha queda sem fim onde ninguém me esperava pois ao descobrir quem me esperava outra não vi senão a mim mesma.

XVII
Algo caía no silêncio. A minha última palavra foi eu embora me referisse à aurora luminosa.

XVIII
Flores amarelas constelam um círculo de terra azul. A água treme cheia de vento.

XIX
Deslumbramento do dia, pássaros amarelos na manhã. Uma mão desata as trevas, arrasta a cabeleira da afogada que não cessa de passar pelo espelho. Voltar à memória do corpo, hei-de regressar aos meus ossos de luto, hei-de compreender o que a minha voz diz.


Alejandra Pizarnik, de "Extração da Pedra da Loucura" (1968), tradução de Luciana Leiderfarb
© Construções Portuárias #1, Maio de 2002



posted by cristina m. fernandes - O blog "morreu", deixou-nos a sua herança. Não a podemos perder, é preciso que perdure, quanto mais não seja para recordar os amigos que nele escreviam.

4 comments:

heloisa said...

_OBRIGADA PELA VISITA, PETER!
OXALA' TENHA VIVIDO UM EXCELENTE NATAL!
(chegou a receber a "segunda via" do Cartao Natalicio que lhe havia enviado?).
_TEM RAZAO:"E' TEMPO DE REFLEXAO"_!!!!!!!!!
_SEMPRE, PARA MIM, E' TEMPO DE REFLEXAO: NAO SEI SE E' BOM... SE E' MAU! (?)...
.......................................OBRIGADA, tambem, pela informacao sobre o *BUSTO DE FLORBELA*, em EVORA!_ADORO EVORA_!Conheco o BUSTO! Mas... podia nao conhecer... por isso, fico grata na mesma, pela INFORMACAO!
Alias, TUDO o que me diga sobre o ALENTEJO:PARTICULARMENTE, VILA-VICOSA, me e' de GRANDE IMPORTANCIA:_TERRA DE FLORBELA_!!!!!!!!!!!!!!!!!!
(Meu avo, quando eu era crianca, levava-me muito, a PASSEAR POR LA'!...).
_Vivi algum tempo, da minha infancia (antes de ter ido para Lisboa e depois para Africa), em REGUENGOS DE MONSARAZ!_MINHAS RAIZES ESTAO NO ALENTEJO!_TUDO O QUE LHE DIGA RESPEITO ME INTERESSA PARTICULARMENTE (faco um trabalho de "recolha": chamemos-lhe assim; para um projecto que tenho "entre-maos"_nao sei se o levarei a "BOM TERMO, pois "escasseia-me o TEMPO"!!!!!!)!_Todoo tipo de INFORMACAO, e' por isso, BEM VINDO E AGRADECIDO!
_FIQUE BEM!
_ESTE ***ESPACO*** ESTA' FICANDO CADA VEZ MAIS RICO* E MAIS BELO*!!!!!!!
Abraco Amigo!
Heloisa B.P.
*******************************

maat said...

um belíssimo texto.
Não conhecia.
obrigada,Peter.

bj.

Peter said...

Heloísa, pistas: natural de Arraiolos,onde vivi até vir para Lisboa tirar um curso superior.Estudei em Évora,onde hoje é a Universidade e tive como prof o escritor Vergílio Ferreira.Conheci bem o escritor Fernando Namora,então médico em Pavia. Ainda conheci o meu conterrâneo, o pintor Dordio Gomes.

Peter said...

"maat" é um texto estranho, mas belo. Pena o blog ter acabado. Era um bom blog.