Sunday, February 06, 2005

Que somos nós?

Que somos nós senão o que fazemos?
Que somos nós senão o breve traço
da vida que deixamos passo a passo
e é já sombra de sombra onde morremos?

Que somos nós senão permanecemos
no por nós transformado neste espaço?
Que serei eu senão só o que faço
e é tão pouco no tempo em que não temos

para viver senão o tempo de
transformar neste tempo e neste espaço
a vida em que não somos mais do que

o sol do que fazemos. Porque o mais
é já sombra de sombra e o breve traço
de quem passamos para nunca mais.

(Manuel Alegre, “O canto e as armas”)

4 comments:

BlueShell said...

Um soneto (mais um) que "fala" até em silêncio...
Peter...faz hoje 15 dias que o meu pai faleceu. E eu cá vou tentando, a custo, erguer-me para dar apoio e amar os que, como eu, ficaram náufragos da dor! Esses, choram também a ausência de um pai, de um marido... e eu preciso deles, nós nos precisamos. Por isso me tento erguer...para não me deixar morrer...sufocada pela dor. Aceita um beijo, BlueShell.

Márcia Maia said...

Eita. Amei este poema. ;)
Peter, há uns dez dias que não consigo acessar nenhum blogue do sapo. O batráquio deve ndar de mau humor. Fico na maior agonia, sem visitar uma porção de amigos.
Ainda bem que, ao menos vc, tem dois espaços.
Beijo daqui,

Márcia

Peter said...

BlueShell,nem sempre gosto do Manuel Alegre, mas neste poema ele transcende-se. Compreendo e lamento a tua dor e isso reflecte-se no modo como encaraste o post que coloquei no "conversas". São momentos difíceis, de resolução individual.

Peter said...

Márcia, é a vantagem de ter 2 servidores. Quando não consigo postar ou comentar no "conversas" ( o que acontece frequentemente ...), fujo para aqui. o SAPO faz-me lembrar a fábula do Sapo (ou da Rã) que queria parecer igual ao boi: inchou tanto, que acabou por rebentar ...