Sunday, April 17, 2005

Balada




Depois do sangue misturado,
depois dos dentes, dos lamentos,
estamos deitados, lado a lado,
e desfolhamos sofrimentos.
Temos trint'anos, mais trezentos
de sofredora exaltação.
É este o cabos dos tormentos?
Ai, não e não! Ainda não.

Saboreamos o passado
por entre os beijos mais violentos
e mais subtis que temos dado.
E o monumento dos momentos
oscila, desde os fundamentos,
a tão febril consagração.
Mas estacamos, sonolentos.
Agora, não. Ainda não ...

Tudo se torna esbranquiçado:
eram azuis, são já cinzentos
os horizontes do pecado ...
Há nos teus ombros turbulentos
cintilações, pressentimentos ...
Os nossos corpos descerão
para que abismos lamacentos?
Ah! não, e não! Ainda não!

Eis-vos, de novo, movimentos
que apunhalais a inquietação!
E assim unidos gritaremos
que não e não! que ainda não!

(David Mourão-Ferreira)

4 comments:

Menina_marota said...

Adoro este poema!

Já estive para o colocar no meu Blog, mas na altura, não me decidi pela imagem e, por isso, resolvi colocar "Deixa ficar a Flor".

Um momento lindo, este... de
poesia...

"...Tudo se torna esbranquiçado:
eram azuis, são já cinzentos
os horizontes do pecado ..."

Abraço ;-)

BlueShell said...

Gosto, gosto, gosto...
Quente!...como eu gosto!

Jinho, BShell

Heloisa B.P said...

E... dizer o que, a tao bela "exaltacao"!???.....
...........................E' sempre BOM vaguear por *AQUI*!
Meu Abraco!
Heloisa.
***************

Manoel Carlos said...

Como disse o poeta: "não sendo eterno, posto que é chama, que seja infinito enquanto dure".