Thursday, June 23, 2005

O MAR

Ondas que descansam no seu gesto nupcial
abrem-se caem
amorosamente sobre os próprios lábios
e a areia
ancas verdes violetas na violência viva
rumor do ilimite na gravidez da água
sussurros gritos minerais inércia magnífica
volúpia de agonia movimentos de amor
morte em cada onda sublevação inaugural
abre-se o corpo que ama na consciência nua
e o corpo é o instante nunca mais e sempre
ó seios e nuvens que na areia se despenham
ó vento anterior ao vento ó cabeças espumosas
ó silêncio sobre o estrépito de amorosas explosões
ó eternidade do mar ensimesmado unânime
em amor e desamor de anónimos amplexos
múltiplo e uno nas suas baixelas cintilantes
ó mar ó presença ondulada do infinito
ó retorno incessante da paixão frigidíssima
ó violenta indolência sempre longínqua sempre ausente
ó catedral profunda que desmoronando-se permanece!

António Ramos Rosa
Facilidade do Ar
Lisboa, Caminho, 1990

7 comments:

Menina_marota said...

"Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o voo dum pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que ideia gravitais?

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais..."

(Poema de Antero de Quental
Poesia Completa -Publicações Dom Quixote-2001)

Porque falar de mar... é falar de mim...

Abraço ;-)

BlueShell said...

"e o corpo é o instante nunca mais e sempre..."

Tão lindo...li vária svezes, com gosto...a saborear as palavras e a música....

Peter said...

"Porque falar de mar... é falar de mim..." /// mar ota? ou por gostares mesmo de praia? Julgo ser a 2ª hipótese. Conheço mal o Antero. Aliás, "debico aqui, debico ali", mas nunca perco de vista o ARRosa.

Peter said...

É BShell,também gosto muito deste poema.

Manoel Carlos said...

Chega a ser monótono e enfadonho o fato de eu ser tão repetitivo; mas vou fazer o quê? A não ser repetir que as tuas escolhas dizem tão bem de ti.
Manoel Carlos

Peter said...

Manoel Carlos, tens toda a autorização para vires ao blog buscar o que qiseres, em especial poemas menos conhecidos de autores portugueses. Desde que te agradem e reconheças neles qualidade. Será uma maneira de os tornares mais conhecidos aí no Brasil.

amita said...

Excelente escolha, Peter. Este poema é um grito (do mar). Bjo