Sunday, October 08, 2006

Poema da mulher


Amo a beleza clara e justa da mulher.
Amo o que nela arde a sua pele serena
o corpo liso a cabeça pousada na mão.
Amo o sorriso por vezes triste o modo
como me olha entre a dúvida e o amor.
Sobretudo amo-a por a ouvir dizer-me
olá e depois é como se a voz abrisse um
caminho entre a minha e a vida dela.
Então tudo em mim lhe comunica um mundo
que estando do lado de cá passa para
o centro dela e fica dentro da sua alma.
Amo-a afinal toda e inteira e desperta
ou adormecida no íntimo do continente
ou na parte mais alta de qualquer ilha.
A mulher que eu amo é um ser de partida
que de vez em quando regressa à minha mão.
Ela não sabe mas há em mim uma maneira
de ir com ela e uma outra de a esperar.
Parto no navio alto e branco do seu ser
espero-a à chegada do vento que a anuncia
presente sentada na bainha da minha alma.

(1998)

JOÃO DE MELO

(Este poema inédito de João de Melo faz parte do volumecolectâneo "Ilhas Atlânticas - Antologia Contemporânea de Poetasde Língua Portuguesa - Madeira, Açores e Cabo Verde", com organização,prefácio & notas de José António Gonçalves, 1999, ACIA e Departamentode Cultura da Câmara Municipal do Funchal - a aguardar edição)

João de Melo nasceu a 4 de Fevereiro de 1949, em Achadinha, S. Miguel, Açores. Em 1960 foi estudar para o Continente, em regime de internato gratuito e acabou por fixar-se em Lisboa. Foi mobilizado para Angola como furriel enfermeiro e aí permaneceu entre 1971 e 1974. Posteriormente, trabalhando e estudando, foi técnico sindical, aluno e monitor da Faculdade de Letras de Lisboa, director editorial, crítico literário e colaborador da imprensa cultural. Licenciou-se em Românicas em 1981.


Em resultado da sua obra já recebeu diversos galardões literários entre eles o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores.


Obras: (Ficção) Histórias da Resistência. (contos) Lisboa: Prelo, 1975.; A Memória de Ver Matar e Morrer. (romance) Lisboa: Prelo, 1977.; O Meu Mundo Não é Deste Reino (romance) Lisboa: Assírio & Alvim, 1983; 6ª ed. D. Quixote, 1989, 1998; Autópsia de um Mar de Ruínas. (romance) Lisboa: Assírio & Alvim , 1984; 4ª ed. D. Quixote, 1992, 1997; Entre Pássaro e Anjo. (contos) Lisboa: Círculo de Leitores, 1987; 3ª ed. D. Quixote, 1993; Gente Feliz com Lágrimas. (romance) Lisboa: D. Quixote 1988; 13ª ed.1995 ; Bem-Aventuranças. (contos) Lisboa: D. Quixote, 1992; 2ª ed. 1992; O Homem Suspenso. (romance) Lisboa: D. Quixote, 1996; 2ª ed. Círculo de Leitores, 1997; (Poesia) : Navegação da Terra, Lisboa, Vega, 1980; (Ensaio) A Produção Literária Açoriana nos Últimos 10 Anos (1968 / 78). Lisboa: Fund. C. Gulbenkian , 1979.Toda e Qualquer Escrita. Lisboa: Vega, 1982; 2ª ed. 1996.Há ou Não Uma Literatura Açoriana?. Separata da revista Vértice, 1982; (Viagens): Açores, o Segredo das Ilhas. Lisboa: D. Quixote, 2000.; (Crónicas): Dicionário de Paixões. Lisboa: D. Quixote, 1994; 2ª ed. Círculo de Leitores, 1996; (Antologias): Antologia Panorâmica do Conto Açoriano. Lisboa: Vega, 1978 e Os Anos da Guerra (2 vols.). Lisboa: Círculo de Leitores / D. Quixote, 1988.


Note-se que o seu romance "Gente Feliz Com Lágrimas", best-seller recentemente incluído na colecção "Mil Folhas" do "Público", com uma edição de cem mil exemplares, foi traduzido e publicado em francês, castelhano, neerlandês e romeno.
É um romance que já li mais de uma vez e sempre com prazer.

3 comments:

Paula Raposo said...

Este poema é lindíssimo! Beijos.

meialua said...

Um poema bem bonito...
Já tinha saudades de cá vir ver as tuas escolhas...

Beijokas

BlueShell said...

O poema é lindo e eu confesso que fiquei a saber acerca do autor...

Para uma noite plena de Paz…um beijo azul, muito azul...
BlueSell