Monday, October 01, 2007

Presídio


Nem todo o corpo é carne ... Não, nem todo,
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco ...?

E o ventre, inconsistente como o lodo? ...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor ... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo ...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono ...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

(David Mourão-Ferreira, "eros de passagem - poesia erótica contemporânea", Selecção e Prefácio de Eugénio de Andrade, desenhos de José Rodrigues, Editora LIMIAR, Dezembro 1982)

15 comments:

Paula Raposo said...

Um belíssimo poema do DMF, por quem nutro uma especial admiração! Escolheste uma maravilhosa imagem para ilustrar. Beijos.

Meg said...

Também sou uma incondicional do David Mourão Ferreira, da sua maravilhosa sensibilidade, da forma delicada como trata a mulher.
E a imagem é linda.
Um abraço

Blueshell said...

Não, meu amor ... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo ...


...é isso mesmo,...

Marlene Maravilha said...

Bonito poema! Passei para visitar-te.
abracos

Blueshell said...

Meu bom amigo...por vezes o futuro é um barco à deriva em plena tempestade...[ prenúncio de desastre]...e nada há a fazer senão...esperar!

Um beijo enorme e azul
BShell

Lumife said...

Tenho uma petição no "Beja". Convido-o a participar.

Bom fim de semana

Abraço

Kalinka said...

OLÁ PETER

BELA POESIA. ADOREI.
FALA DA PRIMAVERA E DO OUTONO...

Começo por desejar um excelente Fim de semana prolongado. O meu tem por finalidade descansar fisicamente e fazer umas arrumações de Outono.

Na minha teimosia de fazer um 3º post sobre a letra F, faço destaque a um evento artístico que teve início a 29 de Setembro e termina a 31 de Dezembro, na Estrada Nacional (EN) 10, junto ao Seixal. Acolhe o Drive In Art 2007, que já vai na sétima edição. As trinta telas de enormes dimensões (2 m por 1,85 m) foram pintadas por vinte artistas, jovens e muito jovens (dos 15 aos 30 anos), e podem ser avistadas nos dois sentidos da EN 10 no troço entre as Paivas e o Fogueteiro. O vencedor (ah pois, isto é um concurso!) ganha 500 euros. Se o público não vai à arte...

Beijokas.

belakbrilha said...

Lindo!
O corpo é sempre uma junção
de tudo e nada
que faz o coração sentir
a cabeça pensar

e...

Lumife said...

Também fiquei surpreso pela pouca divulgaçaõ deste facto nos blogs.

Há condicionantes... mas a petição estará prestes a atingir o milhão de aderentes

Bom domingo

abraço

Papoila said...

Um belíssimo poema de David Mourão Ferreira. No Outono o vulto que se faz Primavera porque:
"... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo ..."
Beijos

Vladimir said...

um poema de excepcional qualidade conjugado com uma bela imagem...

Vieira Calado said...

Um excelentíssimo poema!
E obrigado pelo... fur Calado (risos)

E olhe o que não terá sido a emoção do Gagarine!... para andarem uma data de camelos a estragá-la.

Lumife said...

Amigo, já coloquei no "Beja" os elementos disponíveis do Poeta Francisco Simões.

Grato pela visita.


Abraço

Lumife said...

Recebi a mensagem: Vou reduzir o envio de pps...


Um abraço

Jasmim said...

Lindo o poema e a música também