Friday, October 24, 2008

OUTONO



Apodrecida profusão, metamorfose:
a terra é um velho leque, a abrir e a desfazer-se…
Dentro de cada peito, a máquina da tosse
Aos arremessos mina os frágeis alicerces.

Já começa a ruir o edifício que sou
- hotel, casa de jogo, hospício, biblioteca …
Alheio, bebo e jogo; alheio, leio e sofro
E o vento me arrebata as fichas – folhas secas!

Ó jogo de viver! Jogo o vício do jogo.
Na roleta do Tempo, o vício é que eu aposto!
A esfera gira e cai sobre o número do Outono:
do gosto de jogar aos poucos me despojo…

Laços, anéis e nós – como se vão soltando!
Deslaçam-se na bruma os próprios nós dos dedos.
E é sem ossos nas mãos, ai de nós!, e sem sangue,
que vamos modelando a imagem do Segredo

- a que fica de nós, indizível e densa,
além da nossa morte, informe, diluída
em Novembro e Dezembro e na tinta cinzenta
com que escrevem os dois torpor, melancolia.

(David Mourão-Ferreira, in “Obra poética – 1948-1988”)

- Foto do GOOGLE

11 comments:

Carol Bonando said...

nossa que lindo. adorei o poema.
tem alguns elementos poéticos no texto novo que fiz... alias, acho que apesar de sempre escrever contos, este meu ultimo post está bem poético.
passa la pra ler... se gosta de poesia com vejo que gosta, entao quem sabe possa gostar do que escrevo nao é?
bjs

stériuéré said...

As simples folhas secas revelam infinitos tormentos, em que o leque da vida nos preenche deste vazio imenso......
Adorei, obrigadão pela visita. Espero que voltes mais vezes!

Vieira Calado said...

Não conhecia este belo poema.
Mas a música... tenho-a sempre no ouvido!


Um abraço

belakbrilha said...

Este poema é lindíssimo!
è o OUTONO da vida de cada um, só que tem a sua beleza, são as cores!

bjs

tulipa said...

.
.
.
.
.
.
.
Que o silêncio me embale,
nesta noite
em que falta
o abraço quente de um amigo...

Enrodilho-me nas asas do meu anjo invisível.
- Anjo,
cantas-me uma canção?



Beijos
e
abraços.

Amita said...

Melancolia... a palavra desta Estação.
Mas as cores, as tonalidades maduras e quentes esbatendo-se gradualmente... são tão lindas!
Não conhecia esta beleza de poema.
Um bjinho e uma boa semana

Dalaila said...

cores que pintam o chão

Carla said...

um leque a terra abre para nós...encanto profundo

leonor costa said...

Linda a descrição do outono da vida.
Não conhecia o poema. A música é uma das minhas preferidas.

HOJE E AMANHÃ

Fragmentos Culturais said...

... lindo e intenso, como quase toda a obra de David Mourão-Ferreira!

Quase que se pode ouvir aquela sua voz grave, pausada nesta última estrofe:

[...]
- a que fica de nós, indizível e densa,
além da nossa morte, informe, diluída
em Novembro e Dezembro e na tinta cinzenta
com que escrevem os dois torpor, melancolia.

Sensível selecção para este teu retrato de Outono...

Abraço de 'fragmentos'

Ashera said...

Gostei imenso!!!!!!
Fiz uma hiperligação para o meu blog.
Obrigada
Beijos