Thursday, January 22, 2009

Um copo de vinho torna-me poroso


Um copo de vinho torna-me poroso
como se a dispersa areia do desejo
se concentrasse em lâmpadas lancinantes.
Então leio as mulheres sem vestidos
ao sopro da minha volúpia incandescente.
A violência do meu tacto voluptuoso
embate nas suas formas fascinantes.

São deliciosas panteras magnéticas
de flexível firmeza, de tersa densidade.
Imagens do meu corpo, espelhos da nascente
que no meu sangue murmura, são as pedras de toque
dos meus lábios errantes, do meu olhar sedento.
Porque estarão elas no mundo, para além da fronteira
da minha fome de identidade ardente?
Trespasso-as avidamente, envolvo-as na minha baba
e estendo-as sobre o muro da minha pupila acesa.
Toco as delícias minúcias, apalpo a árvore viva,
acaricio uma maciça coluna magnífica
e num ventre sumptuoso como uma larga guitarra
afundo a minha cabeça exausta e enamorada.

Quem poderá enunciar o puro prodígio
de umas robustas pernas elegantes
como colunas vivas e amorosamente nuas?
Como é pungente a formosura e a vertigem
do desejo que a contempla na impotência
de a tornar sua, totalmente sua!

«António Ramos Rosa, in “Os volúveis diademas” -
Amedeo Modigliani - Nu vermelho (1917)»

5 comments:

antonio - o implume said...

Os homens mesmo nos sonhos são fanfarrões...

Paula Raposo said...

O poema sensualíssimo e lindo! Escolheste muito bem o quadro. Beijos.

Carol Bonando said...

gostei...
kd vc?
sumiu do meu blog, leia por la, acho q vai gostar da melancolia.
abs

Amita said...

Um belíssimo poema cheio de sensualidade. A escolha perfeita da imagem para as palavras de RR com o seu estilo muito próprio de escrever e que encanta.
Com carinho e amizade, um bjo num dia de sol

PoesiaMGD said...

Boa escolha. Para quem gosta de apreciar boa escrita, deixo um convite:



http://www.escritartes.com/forum/index.php?referre

Abraço