Sunday, April 12, 2009

É na idade do não-regresso


É na idade do não-regresso, ao cair da tarde
que erguemos os olhos para os frutos
das árvores que os nossos avós plantaram
no mais chão da terra, no lhano regaço
que enreda, em nós mesmos, os teares do sol.

Bebemos o néctar das antiquíssimas cubas
e as nossas mãos comovidas alongam-se
na simplicidade da entrega silenciosa, no êxtase
dos gestos moldados por perfumes inaudíveis.

Já não é possível um regresso às fontes
que rumorejavam à beira do silêncio das ervas,
os mistérios dum pássaro chegado de longe
para a missão de albergar as tardes cálidas
com o seu gorjeio heróico e efémero.

Mas é ainda possível parar um momento
e reviver a fantasia dum beijo inacabado
por sobre os símbolos que fizeram a nossa vida,
a alquimia duma vertigem volátil, dum só dia.

(Vieira Calado, “por detrás das palavras”)

6 comments:

antonio - o implume said...

Talvez não existam beijos acabados da mesma forma que os poemas se completam.

belakbrilha said...

Já não é possível um regresso físico, mas basta fechar os olhos e RECORDAR... Recordar também é viver outra vez.

Os anos passam, a vida passa, mas as Recordações ficam, até um dia...

É um poema bonito, como aliás o autor nos habituou

Meg said...

Peter,

Sou uma admiradora da poesia do "nosso" Vieira Calado.
E este é mais um poema em que as palavras me deixam "sem palavras".
Só sensações... muitas.

Um abraço

Paula Raposo said...

Óptima escolha! O Vieira Calado é um Poeta excelente. Beijos.

Marta said...

Que lindo poema!!!!
Regressa-se sempre ao ponto de partida, mas com uma outra visão das coisas....
Boa escolha..
Beijos e abraços
Marta

Papoila said...

Um belo poema deste "nosso" poeta esta alquimia das palavras em vertigem volátil de um beijo que não foi inacabado... porque continuou aqui.
Beijos