Saturday, April 09, 2005

Ciúme de morte

Manoel Carlos, gosto de o ler e aprecio as suas visitas. Tomei a liberdade de publicar este texto que não só exprime o meu agradecimento, como por certo possibilitará um seu maior conhecimento. Quem o quiser ler, poderá fazê-lo nos links, em Manoel Carlos.

Magnólia respirou fundo para se conter.
Ela não desejava fazer um escândalo, por mais que ele merecesse.
Ordinário! este desgraçado! vai ver só...
Todo homem é assim mesmo, não vale o que o gato enterra!
Este cachorro!, sempre foi mulherengo.
E não pense ele que só por ela não ver signifique que não sabe.
É óbvio demais!
Este jeito distraído, o ar ausente e pensativo... só pode ser paixonite!
Quando me amava, era assim que ele ficava.
Ela gosta de acompanhá-lo em viagens à terra natal dele.
Ele fica mais alegre, mais comunicativo, e até mais carinhoso; isto ela reconhece.
Reconhece também que Rildo não deu bolas para Jurema, bonita, faceira, rebolativa e toda oferecida a ele.
Ele foi gentil, mas se esquivou com delicadeza.
E logo com Jacira?!
Aquela mosca morta?
Não é possível entender por que homem, além de safado, é tão estúpido.
Como se ela não fosse perceber.

Rildo, em sua terra natal, é outro homem.
Na verdade, é o contrário.
Longe, na lida cotidiana, ele se sente despedaçado, fragmentado.
Ao voltar, o que o move não é o saudosismo.
Mais que o reencontro com lugares, coisas e pessoas, comidas, bebidas, familiares e
amigos, há o reencontro consigo mesmo.
Ele se sente recomposto, reconstituído, revitalizado, revigorado.
Há inteireza e, sendo completo, nada lhe falta.
As tentações?
Sempre soube que há duas formas eficazes de lidar com as tentações: evitá-las ou ceder a elas.
Ele as evita, mas não ali, nem as sente.
Magnólia, sua flor, é tudo que o atrai.
Para ela, é todo alegria, muxoxos, atenções.
O encontro com ex-namoradas não lhe causa mossa.
Foi outro o impacto que Jacira lhe causou.
Não pode contar para Magnólia, jamais falou disto com alguém.
Ele sabe o que é.
Não consegue uma explicação e isto o desorienta.
Aconteceu outras vezes.
Aprendeu a reconhecê-la.
Como na última vez que viu os avós, os pais, os tios...
Sempre com pessoas idosas.
Agora foi com Jacira.
Ele a conhece e reconhece, estava nos olhos dela quando o olharam.
Ele sabe quando vê a morte.

MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quarta-feira, Março 23, 2005

3 comments:

amita said...

Mais um boa história contada pelo Manoel Carlos que tenho o prazer de ler. Bjos Peter e bfs

Peter said...

Amita, este blog vive muito da boa vontade dos que nos visitam. Bom Domingo.
P.S. - Eu tinha razão sobre a Lótus. :-)

Manoel Carlos said...

Epa! Como habitualmente faço, atualizava minhas leituras, das postagens mais recentes para as mais antigas.
E me deparo com isto!
Quanta honra ter o miniconto publicado por você.
Imensamente grato.