Friday, October 14, 2005

A magia do círculo



Milan Kundera na sua obra,“O livro do riso e do esquecimento”, escreve:

“Dançar em roda é mágico; a roda fala-nos das profundezas milenárias da memória humana.”

“(...) um dia, disse qualquer coisa que não devia ter dito, fui expulso do partido e tive de sair da roda.
Foi então que compreendi o significado mágico do círculo.
Quando nos afastamos da fila, ainda nos é possível voltar. A fila é uma formação aberta. Mas o círculo fecha-se e quando se sai é sem regresso.
(...)
Há pessoas que (...) conservam sempre em si como que uma tímida nostalgia da dança em roda perdida, porque somos todos habitantes de um universo em que todas as coisas giram em círculo.”



António Ramos Rosa, um dos meus poetas preferidos, fala-me da magia do círculo:

“Será a paciência que sustém a mão e a leva lentamente
até onde começa o verdadeiro começo?
Nunca se começa no princípio porque entramos num círculo
e o círculo não tem princípio nem fim
mas temos de rodar até que inesperada surja a fenda
por onde irrompe o sangue de uma árvore
que será o começo porque ela é todo o círculo que a desconhece.

A espera é a consciência de uma doação na paciência
e na expectativa do sangue que inicia o outro círculo
sobre o círculo e na sua redondez é sempre o começo
onde o corpo partilha o seu dom com o dom de um outro
Este sangue é fogo com os seus dedos azuis
que iluminam o terraço onde a indolência é dança

A paciência retorna quando a última gota de sangue
se extinguiu na página e o dom culmina
na linha extrema em que o princípio é o fim
e tudo é já ter sido mas o dom prolonga-se
no corpo que o recebeu na origem antes do princípio”

(António Ramos Rosa, “A imobilidade fulminante”)

8 comments:

dulce said...

"Like the circles that you find in the windmills of your mind"...
Ainda não li essa obra do Kundera, mas vou tomar nota para não me esquecer de a procurar.
O poema é também ele construído em círculo.
Bjs.

lazuli said...

Muito belo que escreves.

Zica Cabral said...

engraçado que andava há anos para comprar esse livro do Milan Kundera e há pouco, quando regressava de Portugal, comprei-o no aeroporto juntamente com o ultimo da Isabel Allende. Li sofregamento o Zorro da I.A. e deixei o outro para depois. Ando agora a soborea-lo pois ão se pode ler de supetão. AS frases e ideias que contem têm que ser lidas, relidas e pensadas para depois se poderem absorver
Gostei muito deste teu post com dois grandes escritores.
Um abraço
Zica

Zica Cabral said...
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Zica Cabral said...
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Zica Cabral said...

desculpa ter apagado 2 dos meus comentários mas sairam repetidos...já nãoé a 1ª x que isso acontece mas irrita-me deixá-los ficar
um abraço
Zica

mfc said...

Nunca tinha pensado nisso, mas está certo! O círculo é reunião... o sair dela é vaguear isolado.

Menina_marota said...

Olá. Hoje não vou comentar o teu Post. Venho pedir-te que actualizes os meus endereços, porque fechei definitivamente os Blog’s do Sapo. Encontrar-me-ás em

http://www.mgrande.com/weblog/index.php/eternamentemenina/
e
http://meninamarota.blogspot.com/

pelo que agradeço antecipadamente a tua presença lá.

Um abraço e boa semana ;)