Sunday, October 02, 2005

O corpo é todas as coisas



O corpo é todas as coisas
menos a luz que resplandece do teu olhar
menos o azul

que não está nas coisas
nem no céu primaveril que se abre em rosa
nem nas águas cintilantes do oceano
nem nos teus olhos iluminados
pela pueril fragrância das glicínias

todas as coisas
são o universo inteiro que vai além
das coisas que vemos
suspensas nos pilares do tempo
ou as que não vemos
por estarem ocultas na ficção dos espelhos

sempre o corpo
será a perpetuação de todas as coisas
na brevidade dos instantes

menos o nada que nada é fora de si próprio

menos o absoluto
espaço desabitado para lá do portal dos deuses

menos o amor
sempre em viagem na errância do desejo

sempre o corpo será
todas as coisas ígneas a incendiar
a noite e o firmamento incerto

sempre as mãos semearão a pedra entre vagas luas
e os lábios sulcarão os regos do corpo entreaberto
com arados de sangue de saliva e de sémen

sempre o corpo aspirará a ser liberto das cisternas
do medo onde mergulha as raízes

todas as coisas nunca serão no corpo
todas as coisas na sua infinita falta de si mesmo.

(Maria do Céu Brito)

10 comments:

mfc said...

"sempre o corpo aspirará a ser liberto", sim, libertado pelo amor... é essa a sua função primordial!

vero said...

Adoro vir aqui a este seu cantinho...faz-me sentir muito bem! Obrigada...
Beijinhos***

Peter said...

mfc: Maria do Céu Brito (n.1956),lic Filosofia, nascida no Fundão e prof sec no Faial,onde desenvolve actividades ligadas ao teatro e à animação cultural.

Peter said...

vero, sinto ser um lugar só meu, onde publico o que gosto e quando me apetece e há sempre uma amiga/o que aparece ...

amita said...

Este jogo de palavras entre o "menos" "sempre" "nunca" torna este poema fabuloso. Bjo

elsaaaaa said...

Que bom a cadência das palavras no ritmo das frases. Gostei bastante, pareceu música nos meus ouvidos o teu post. Thanks, voltarei sempre, e deixo beijinhos e bom fim de semana

elsaaaaa said...

Obrigada pela tua visita, entretanto deixa que te apresente o meu outro blog, alem dos ritmos: http://utilidades.blogs.sapo.pt. Elsita

Luna said...

todas as coisas nunca serão no corpo
todas as coisas na sua infinita falta de si mesmo.

Fantástico

A. Duarte Lázaro said...

Um poema cuja leitura, mesmo que silenciosa, faz ouvir um canto... apetece declamá-lo!
A tua ausência puxou-me para aqui...

amita said...

Um bom fim-de-semana, Peter. Bjo