Sunday, January 01, 2006

Entre los tíbios muslos te palpita ...


Entre as tépidas coxas te palpita
um negro coração febril, fendido,
de remoto e sonâmbulo latido
que entre escuras raízes se suscita:

um coração felpudo que me incita
mais que outro cordial e estremecido
a entrar como na casa em que resido
até tocar o grito que te habita.

E quando jazes toda nua, quando
ávida as pernas abres palpitando,
e até ao fundo, em frente a mim, te fendes,

um coração podes abrir, e se entro
com a língua nas entranhas que me estendes,
posso beijar teu coração por dentro.

(Tomás Segovia, in "Vozes da poesia europeia",
vol III, Fundaçao Calouste Gulbenkian,
Traduções de David Mourão-Ferreira)

5 comments:

lazuli said...

olá, Peter. Poema lindíssimo, este que colocaste aqui.
Deixo um do Pablo Neruda.

Um beijinho*


Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.

--
Pablo Neruda ( não sei quem foi o tradutor)

dulce said...

Lindo Peter!
Beijos.

amita said...

Dois belíssimos poemas que encontrei por aqui.
De Lope de Vega, também traduzido por DMF, deixo um soneto:

A mulher é do homem bem ameno
e é loucura chamar-lhe o pior mal:
pode ser sua vida e seu regalo,
pode ser sua morte e seu veneno.

É céu, aos olhos, cândido e sereno,
que muitas vezes ao inferno igualo:
por excelso ao mundo seu valor sinalo,
por falso ao homem seu rigor condeno.

Ela nos dá o sangue, ela nos cria;
mas não existe coisa mais ingrata:
é um anjo, e por vezes uma harpia.

Quer, aborrece, trata bem, maltrata.
E é a mulher, por fim, como sangria,
que às vezes dá saúde e às vezes mata.


Um bjo e bfs

vero said...

Olá Peter, passei para deixar um beijinho***

maat said...

gentil a sua visita, obrigada.
para quando outro livro?
está entregue, aguardo a saída.

Belo, suas escolhas são muito boas, pensadas, e com uma estética preciosa.



***
maat