Tuesday, January 24, 2006

Quase



Um pouco mais de sol - eu era brasa.
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Nm baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar....
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

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.........................................

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

(Mário de Sá Carneiro)

8 comments:

Manoel Carlos said...

Há quem faça poemas das impossibilidades e eu os aplaudo.

amita said...

Olá Peter. Retorno à correria do tempo escasso. Adorei este poema que gostaria de responder como merece a tua sensibilidade. Em resposta, não vou a Lisboa, outros deveres se "alevantam" e nem o tempo está propício a deslocações apesar da grande amizade que lhes devo. Deixo-te um bjo e uma flor para que o dia seja de sorrisos doces.

maat said...

Não me canso de ouvir este poema do Mário.
Sempre eterno.
O meu novo livro deve sair em Fevereiro.
Obrigada pelo interesse.


Receba o meu Afecto,

***maat

lazuli said...

Bom dia Peter. Bem hajas, hoje venho mesmo a correr mas não quis deixar de "deixar" este bom dia, que desejo que seja feito do azul lindo com que ilustras este poema eterno.
Um beijo.

fernanda g.

Su said...

adoro este poema de m.s.c.
adorei lê-lo aqui
jocas maradas

marta said...

Pouso em ti minha cabeça

Deslumbra-me de luz o coração

Escuto tuas palavras sem preça

Nenhum gesto fica em vão.



Tua amizade me faz tão feliz

Nesta ternura e paz fico perdido

Deus olha para baixo e diz

-Valeu a pena criar o mundo.



Em ti nasce minha coragem

Cada olhar fica iterno

Tuas palavras me aquecem

Trés meses de inverno.



Sem ti nada valia o que fiz

Teu rosto transmite a bondade

Quero que sejas feliz

Bonitas palavras de amizade !

Menina _marota said...

"[...]Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão![...]"

...e, porque a Vida continua, tem que continuar, seja qual for o nosso estado de espírito, as nossas paixões ou desejos, a beleza da poesia permanece!

Grata por esta partilha de um autor que adoro ler!

Um abraço carinhoso e boa semana :)

dulce said...

"Quase o amor, quase o triunfo e a chama..."
Uma excelente escolha.
Um beijo para ti.