Thursday, September 14, 2006

Ursa Maior


Deixaste uma gota de saliva no meu ombro
e partiste. A lua veio então
lamber o que restava da estrela:
um cálice para as colheitas de Setembro.
Nunca saberemos da sede das árvores.
Se são os corpos que engolem os lagos
se os lagos engolem os corpos
mar flectindo-se de garganta em garganta.
Caminhas sem te afastares da nossa mesa.
No céu as searas douram os dias
e a planície separa os restos de uma morte.
Sangrámos em cada primeira vez.
A estrada cheira ainda à infância de uma serpente
ao chá bebido entre cicatrizes.
Partiste. Da noite restam breves constelações.
Um dilúvio sobre o meu ombro.

(Poema de Catarina Almeida)

Catarina Mendes de Almeida, 23 anos de idade, residente em Lisboa e licenciada em línguas e cultura portuguesa venceu o "Prémio de Poesia Daniel Faria 2006", atribuído pela CM Penafiel, à sua obra “Prefloração”.

5 comments:

Paula Raposo said...

Merecido prémio. Este poema é uma maravilha!

BlueShell said...

Fiquei sem palavras...mesmo!
Beijo-te.
BShell

Luna said...

Muito bonito da tua parte, a omenagem que fizes-te.
Mas na verdade é bem merecida
beijos

amita said...

A Beleza, sempre em sintonia, entre a imagem e o poema.
Um bjo e uma boa semana

marujinha said...

Lindissimo. Qualquer comentário da minha parte iria estragar a beleza do poema.

Beijinho da Marujinha