Saturday, September 01, 2007

Poema de Alice Vieira



Poema inédito de Alice Vieira, publicado no Jornal de Letras de 24 de Abril do corrente ano e que, segundo li, está publicado num livro que não sei se já saiu, intitulado "Dois corpos tombando na água".
Alice Vieira, autora de diversos títulos de literatura infanto-juvenil, concorreu sob pseudónimo, ao prémio de Poesia Maria Amália Vaz de Carvalho com este livro e ganhou.
Como curiosidade: é o 1º livro de Poesia que escreve.

De "Dois corpos tombando na água":

8.

“havemos de ser outros amanhã
ou daqui a momentos ou já agora
e dificilmente reconheceremos o espaço da alegria
em que noutras horas chegámos a nascer

e então meu amor
(não sei se reparaste mas é a primeira vez
que escrevo meu amor)
teremos nos olhos a cor sem cor
das roupas muito usadas
e guardaremos os despojos das noites
em que tudo sem querer nos magoava
nas gavetas daqueles velhos armários
com cheiro a cânfora e a tempo inútil
onde há muitos anos escondemos
um postal da Torre de Belém em tons de azul
e um bilhete para a matiné das seis no São Jorge
onde um homem (que muitos anos depois
segundo me contaram se suicidou)
tocava orgão nos intervalos em que
nos beijávamos às escondidas

e dessas gavetas rebenta a poeira do tempo
que matámos a frio dentro de nós
com os filhos que perdemos em camas de ninguém
e as pedras que nasceram no lugar das cinzas
e havemos de perguntar (mesmo sabendo que
já não há ninguém para nos responder)
por que foi que nos largaram no mundo
vestidos de tão frágeis certezas
por que nos abandonaram assim
no rebentar de todas as tempestades
sabendo que o futuro que nos prometiam batia
ao ritmo das horas que já tinham sido
destinadas a outros e nunca
voltariam a tempo de nos salvar

mas enquanto vai escorrendo de nós o pó
desses lugares onde ainda há vozes
que não desistiram de perguntar por nós
vamos bebendo a água inicial das nossas línguas
um ao outro devolvendo o pouco
que conseguimos salvar de todos os dilúvios"

(Alice Vieira) - Foto Google

18 comments:

Paula Raposo said...

Belo poema!

Lumife said...

Gostei muito.


Abraço

Papoila said...

Muito belo este poema. Boa partilha.
Beijos

Rodrigo said...

Caro Peter,

Gostaria de saber mais sobre "L'angelo coi baffi". É apenas um poema? Existe um filme? Que desenho é esse em que o general substitui o anjo? Estou buscando informações acerca do tema e encontrei seu blogger. Qualquer ajuda viria a calhar. Obrigado. Você dispõe belos textos aqui. Parabéns.

rodrigomacal@gmail.com

Peter said...

Rodrigo

Tente:

http://www.turismoitinerante.com/turitzine/idee_arch_mostra.php?id=4&

O "Anjo com bigode" foi postado em 05 FEV 05. Julgo ter sido publicado um DVD em que o anjo foi substituido por um velho general reformado (julgo...).

Peter said...
This comment has been removed by the author.
delusions said...

Não conhecia o blog, andei a passear e gostei muito. Parabéns.

Adorei este poema que desconhecia...Principalmente desta parte:
"e havemos de perguntar (mesmo sabendo que
já não há ninguém para nos responder)
por que foi que nos largaram no mundo
vestidos de tão frágeis certezas
por que nos abandonaram assim
no rebentar de todas as tempestades
sabendo que o futuro que nos prometiam batia
ao ritmo das horas que já tinham sido
destinadas a outros e nunca
voltariam a tempo de nos salvar"


Bjs*
Sofia

heloisa said...

BELISSIMO POEMAE... ADORO ALICE VIEIRA*********(nem imagina o quanto!!!!!!!...)
E... VENHO AQUI* COM O PRINCIPAL PROPOSITO DE LHE DESEJAR MUITOS MAIS SOIS E LUAS********
PARABENS E... *GALAXIAS DE ABRACOS* COMO DIZ NOSSA AMIGA ASHERA********!!!!!
PARABENS CARISSIMO PETER!
(enviei-Lhe e-mail esta tarde e, espero, que desta vez eu tenha acertado com o correcto ENDERECO!!!!!!!!
Beijinho.
Sua Amiga,
Heloisa
**********

Blueshell said...

Eu é que tenho de te estar grata....por TUDO!

Beijo terno de uma concha AZUL!

Vieira Calado said...

Conheci a Alice Vieira quando era recepcionista no Hotel do Vimeiro, mais o marido o Mário Castrim.
Boa gente.
Sempre preocupados com a cultura e as pessoas, em geral.
Bom Domingo.

Paula Raposo said...

Tanta vez que venho aqui que até já conseguiste que goste desta música!! Beijinhos.

Anonymous said...

só para dizer: Bom dia!
Um poema de que gosto.

Obrigada,

***maat

Wings said...

Caro amigo já há muito tempo que não por passava por estas bandas, mas, pelo que vi continua em grande parabens. Gostei muito do que li,vou voltar prometo.

Um Abraço

*©õllyß®y said...

Belo poema, neste belo espaço...

Doce beijo

©õllyß®y

Cristina said...

Quantos anos passaram já desde o primeiro encontro que tive com a escrita de Alice Vieira! Os livros íam e vinham entre alunos, amigos , colegas... Estabeleciam cumplicidades, motivavam leituras... Mas sobretudo era a sua prosa que lia,dava a ler ou lia para ...
Agora que conheço Alice Vieira mais de perto, tenho procurado a sua poesia e vim aqui parar... Sei que não vou resistir a comprar O LIVRO...Sou muito ciosa do que leio e gosto...Parabéns pela escolha, deixo-o pois, em boa companhia. Claro que penso voltar...

Cristina said...

Quantos anos passaram já desde o primeiro encontro que tive com a escrita de Alice Vieira! Os livros íam e vinham entre alunos, amigos , colegas... Estabeleciam cumplicidades, motivavam leituras... Mas sobretudo era a sua prosa que lia,dava a ler ou lia para ...
Agora que conheço Alice Vieira mais de perto, tenho procurado a sua poesia e vim aqui parar... Sei que não vou resistir a comprar O LIVRO...Sou muito ciosa do que leio e gosto...Parabéns pela escolha, deixo-o pois, em boa companhia. Claro que penso voltar...

mariana said...

Li este poema recentemente..é maravilhoso, pelo conteúdo, pela mensagem e pricipalmente como o amor é contado!

mariana said...

Li este poema recentemente...é pura poesia na mensagem mas principalmente na forma como é descrito o amor!