Saturday, September 20, 2008

Perde-se com a idade

“Perde-se com a idade um não sei quê
que era talvez sombra e sabor e até tristeza
e assim temos outra paz de inclinação
em clareiras limpas tocadas de algum eco
melancólico e lúcido. E quase sem ilusão
entregamo-nos ao âmbito de uma paz
que é a medida do mundo quando nada
se nos oferece senão o habitar
aquelas horas de um universo que
é no silêncio glória obscura e transparente.
Assim nos inebriamos também da madurez
procurando a inocente incandescência
do tempo quando ilumina as clareiras
e é como se nada ainda fosse passado
na onda lenta que ascende sobre o peito
e que desperta um vago núcleo que inicia.”

(ARRosa)

4 comments:

Paula Raposo said...

Gostei imenso desta doçura que emana do poema e que me tocou aqui...beijos.

Dalaila said...

silêncio onde nada se perde mas grita-se e sai.

Tiago R Cardoso said...

muito bom.

André Couto said...

Passos tristes

"Voltando para a cama aos apalpões depois de mijar
Abro as espessas cortinas e sinto um sobressalto
Ao ver as nuvens velozes e a limpidez da lua.

Quatro da manhã: os jardins de sombras agrestes
Sob um céu cavernoso, espicaçado pelo vento.
Há nisto tudo algo que faz rir,

A lua a correr por entre as nuvens ralas
Como fumo de canhão acaba por se destacar
(Luz cor de pedra aguça as arestas dos telhados)

Elevada, insensata e solitária -
Pastilha do amor! Medalhão da arte!
Oh, lobos da memória! Imensidões! Não,

Virado lá para cima sinto um leve arrepio.
Esse olhar tão singularmente duro e claro
Tão amplo, tão fixo e penetrante

Traz à memória a intensidade e a dor
De ser jovem; e recorda que nada disso vai voltar,
Mas existe plenamente, noutro sítio, para outros."

(Philip Larkin)

tradução: Maria Teresa Guerreiro